Base de dados geoespaciais sobre Sergipe (V1.0): abrindo os dados, socializando conhecimento.

 Simone Sardeiro
Geógrafa, Especialista em Geoprocessamento (GIS Green River Community College/USA). Assessora Técnica do Núcleo de Geografia e Cartografia do Observatório de Sergipe.

Edson Magalhães Bastos Júnior
Geógrafo, Especialista em Geotecnologias. Coordenador do Núcleo de Geografia e Cartografia do Observatório de Sergipe

O Observatório de Sergipe lança mais um produto, o banco de dados espaciais com informações sobre os Censos demográficos 2000 e 2010, bem como estatísticas vitais, informações territoriais de dados econômicos para o Estado de Sergipe.

Os dados foram tabulados em formato de planilha eletrônica (Excel) e vinculados às informações gráficas de limites municipais, gerando um banco de dados geográficos no formato Esri file geodatabase. Inicialmente, são disponibilizadas 74 variáveis que envolvem temas sobre demografia, divisão territorial, domicílios, educação, renda, indicadores econômicos e finanças municipais.

A formatação dessa base de dados permite ao usuário de geoinformação, ou não, liberdade e flexibilidade para construir suas próprias análises e mapas, conhecendo melhor as condições de vida da população nas áreas urbanas e rurais.

CONTEXTUALIZAÇÃO

Numa época em que a sociedade privilegia a informação como necessidade básica para o planejamento e desenvolvimento de políticas públicas, fundamentada em uma base de conhecimento sobre a realidade local, o Observatório de Sergipe disponibiliza o banco de dados espaciais com informações a nível territorial com dados econômicos e estatísticas vitais para Sergipe.  A iniciativa se insere no projeto de implantação do Sistema Estadual de Informações e agregará uma gama de dados sobre Sergipe em diversos temas.

A iniciativa é uma estratégia de disseminar dados dos Censos, contribuindo também para a alfabetização cartográfica da sociedade, que envolve experiências de ensino/aprendizagem em representação do espaço e incentivar o uso da geoinformação entre os gestores públicos e comunidade científica.

Trabalhar com a geoinformação significa utilizar Sistemas de Informações Geográficas, que aliam a Informática à Cartografia para realizar análise complexas. O Geoprocessamento é uma tecnologia interdisciplinar, que tem na análise espacial um lugar comum para as diferentes disciplinas do conhecimento. Serve para fundamentar estudos e pesquisas nas mais variadas área de interesse.

O arquivo em formato Geodatabase, que é a sigla de Geographic Data Bases (Banco de Dados Geográficos) representando uma nova geração de banco de dados georreferenciados. É uma forma organizada de trabalhar as informações geográficas, porque, nesses formatos, além dos dados “puros”, é possível armazenar regras de representação visual, funções e relacionamentos entre as categorias e um dicionário de dados (metadados), que auxilia o usuário na correta utilização das informações.

Sig Sergipe

O Sistema Estadual de Informações sobre Sergipe está em fase de desenvolvimento e prevê a disponibilização de dados cartográficos de alta precisão tanto para qualquer localidade do estado.

Em Sergipe observa-se ainda uma quantidade muito grande de dados não sistematizados, o que compromete seu acesso e sua utilização tanto pelo gestor publico como pela sociedade geral. Esta ação representa um esforço pela democratização da informação e está relacionado ao conceito de open data.

Nas edições futuras serão incorporados novos dados do Censo 2010 e mais informações geográficas sobre o Estado de Sergipe.

Confira a matéria publicada no portal da Seplag, em www.seplag.se.gov.br.

Anúncios

A Adequabilidade do Saneamento nos Municípios Sergipanos*.

Walter Uchôa Dias Júnior
Geógrafo
Superintendente de Estudos e Pesquisas/Seplag
Coordenador do Observatório de Sergipe

 

*Publicado no Jornal da Cidade em 14/02/2012.

Dando prosseguimento a divulgação dos resultados do Censo 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, em novembro de 2011, dados com resultados dos Indicadores Municipais, abordando os seguintes temas: Aspectos Populacionais, Cor ou Raça, Composição das Unidades Domésticas, Situação Educacional, Saneamento, Distribuição e Diferenciais de Rendimentos e Direitos Humanos e Indicadores Sociais.

Da gama de informações disponibilizadas nesta etapa de divulgação, o Observatório de Sergipe elaborou estudo analisando os dados das condições de saneamento domiciliar para Sergipe e seus municípios, podendo ser acessado em sua íntegra através do endereço: http://www.observatorio.se.gov.br/pesquisas-socioeconomicas2/164-estudos-especiais.html.  

No estudo, os domicílios foram classificados da seguinte forma:

– Domicílio com saneamento adequado (é aquele com escoadouro ligado à rede geral ou a fossa séptica, servido por rede geral de abastecimento e com destino do lixo coletado diretamente ou indiretamente pelos serviços de limpeza);

– Domicílio com saneamento semiadequado (possui acesso adequado em pelo menos um dos serviços de abastecimento de água, esgoto ou lixo); e

– Domicilio com saneamento inadequado (aqueles não conectados à rede geral de abastecimento de água, ao esgotamento sanitário e não possuidores de acesso à coleta de lixo).

Nordeste e Sergipe

Para a região Nordeste foi constatado que 40,02% dos domicílios particulares permanentes estão com bons índices de adequabilidade, 45,01% na categoria de semiadequado e 14,07% com padrões inadequados de saneamento, sendo esse o segundo maior índice, perdendo apenas para a região Norte.

Em relação aos estados nordestinos, observou-se que a Bahia (47,69%), Sergipe (47,47%) e Pernambuco (47,35%) apresentam os melhores desempenhos em relação à adequação de saneamento que, acompanhados de Paraíba (45,56%) e Rio Grande do Norte (41,97%), tem percentuais acima da média para o Nordeste (40,02%).

Já entre os domicílios particulares permanentes com índices de inadequação, Sergipe aparece com o segundo menor percentual nordestino, 9,43%.  O estado do Rio Grande no Norte (7,93%) lidera e Pernambuco (12,07%) aparece em terceiro.

O Saneamento nos municípios sergipanos

Tratando a condição de saneamento em visões municipais e territoriais, constata-se que Aracaju (86,53%), Carmópolis (81,59%), Propriá (71,39%), Telha (65,23%) e Tobias Barreto (60,46%) são os cinco municípios com maior percentual de adequabilidade.

Entre os dez primeiros, além da capital, aparecem também mais quatro municípios que fazem parte do Território da Grande Aracaju (N.S. do Socorro, B. dos Coqueiros, Maruim e Riachuelo). Esse alto percentual de domicílios com adequabilidade na Grande Aracaju está diretamente relacionado à concentração populacional (demandando mais ações públicas) e a importância que esse Território possui para o Estado, concentrando grande parte das atividades de serviços, indústria e comércio, evidenciando a crescente metropolização que além da capital estadual, envolve principalmente os municípios de Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão e Barra dos Coqueiros.

Gráfico 1: Domicílios com Saneamento Adequado, Sergipe – 2010.

Destacam-se também os altos percentuais de adequabilidade de municípios do interior sergipano, como Carmópolis, Propriá e Telha, bem como nos municípios que compõem os Territórios do Agreste, Centro Sul e Alto Sertão Sergipano.

Quanto à condição de semiadequação, São Domingos (96,94%), Malhada dos Bois (92,15%), São Francisco (89,98%), Areia Branca (86,91%) e Ilha das Flores (86,55%), apresentam os maiores percentuais de domicílios sendo atendido por ao menos um dos serviços citados no estudo. Ao fazer uma análise territorial, verificam-se maiores índices na porção nordeste, composta por todos os municípios do Médio Sertão e pelos municípios de Nossa Senhora das Dores (80,76%), Capela (75,55%), Japaratuba (79,90%), Japoatã (76,98%), Brejo Grande (80,50%), Neópolis (68,04%), Nossa Senhora de Lourdes (81,06%), Amparo de São Francisco (66,86%) e Pirambu (73,99%). Todos esses com percentuais acima de 62% de domicílios com status de semiadequabilidade.

Figura 1: Mapa Adequação dos Municípios Sergipanos – 2010.

Já para a situação “inadequado”, a zona mais homogênea com altos percentuais envolve os Territórios Centro Sul e Sul, sendo composta pelos municípios de Cristinápolis (26,14%), Tomar do Geru (42,89%), Indiaroba (23,61%), Umbaúba (18%), Riachão do Dantas (42,62%) e Simão Dias (28,38%), Salgado (36,82%) e Santa Luzia do Itanhy (32,35%).

Gráfico 2: Domicílios com Saneamento Inadequado, Sergipe – 2010.

O Baixo São Francisco demonstra um comportamento semelhante em sua porção mais litorânea, com Pacatuba (50,12%) e Japoatã (21,12%) apresentando os maiores percentuais. O Alto Sertão apresenta percentuais significativos de domicílios em situação inadequada de saneamento, com percentuais variando entre 15,5 e 26,1%, entretanto são altos também os percentuais de domicílios em situação adequada, dando ao mesmo um caráter intermediário ou se analisar municípios de outros territórios.

Considerações

Os indicadores socioeconômicos municipais representam um importante conjunto de estatísticas públicas que servem de base para o planejamento e a gestão de políticas públicas, permitindo traçar diversos panoramas e visões sobre a sociedade, abordando a características socioeconômicas, ambientais e culturais da população.

Nas próximas semanas, a partir da análise de microdados de pesquisas como o PNAD 2009 e CENSO 2010, a Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão, através do Observatório de Sergipe, divulgará novos estudos, com informações por setores censitários e abordagens transversais que retratem de forma mais eficiente e especializada  a realidade de Sergipe.

Importação de Mão de obra no Brasil

*Carlos Manuel Machado Cardoso Neto
Assessor Técnico
Observatório de Sergipe
Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão de Sergipe

 

Nos últimos anos o Brasil tem chamado atenção do mundo, se destacando entre as economias emergentes e ganhando notoriedade perante a comunidade internacional, principalmente por usufruir de uma economia pujante e com uma demanda interna bastante aquecida. Apesar do crescimento do PIB não ser tão vigoroso quanto à maioria dos países emergentes, principalmente entre os BRIC (Brasil, Rússia Índia e China), atualmente é um dos países que mais atraem IED (Investimento Externo Direto), só no período de janeiro a setembro de 2011 entraram mais de 66 bilhões de dólares, recorde histórico.

Um recente estudo publicado pela Veja e desenvolvido pela The Economist destaca que a estabilidade política, seriedade para cumprir e respeitas os tratados e os organismos internacionais, as oportunidades de mercado respaldadas por políticas de investimento abertas, a grande disponibilidade de recursos naturais somado a uma demanda interna bastante aquecida e crescente têm sido determinante para a atração de IED. Diante desse cenário é intuitivo deduzir que o forte aumento dos investimentos em capital fixo produz efeitos benéficos na economia.

No entanto, ao passo que este crescimento acontece, ele atrai trabalhadores de outros países interessados em aproveitar essas oportunidades. Segundo os números do Ministério do Trabalho, houve um aumento de 34,5% nas autorizações concedidas aos trabalhadores de origem estrangeira até o terceiro trimestre de 2011 em comparação com o mesmo período de 2010. Só no terceiro trimestre de 2011 foram concedidas mais de 26.000 autorizações de trabalho, de julho a setembro de 2010 chegaram a 16.836. Em Sergipe o salto é ainda maior, até o terceiro trimestre de 2011 registrou-se um crescimento de 254% nas autorizações de trabalho concedidas.

O fato que chama à atenção é o perfil e a origem dos profissionais que aportam no país. Do total das autorizações concedidas no Brasil, 58% dos profissionais possuem nível escolar entre superior completo e doutorado, 32% possuem nível técnico e apenas 10% com grau de escolaridade não informado e/ou 2º grau incompleto. Quanto aos países de origem os cinco primeiros que mais “enviaram” trabalhadores foram os EUA, Filipinas, Reino Unido, Índia e Alemanha. Em Sergipe os países de origem mais representativos até o terceiro trimestre de 2011 foram à Noruega, Peru e Índia.

Esse movimento migratório ocorre, principalmente, pela atual conjuntura econômica mundial e pela a zona do euro e os EUA estarem em crise econômica desde 2008. O maior dos agravantes é a atual taxa de desemprego nessas regiões, na UE a taxa de desemprego está em 9,8% no total e quando estratificada entre os jovens (15 a 24 anos) é ainda maior e chega a 22%; nos EUA a taxa é de 9% no geral e de 16,7% entre os jovens.

Ao observar a evolução dos números nos últimos anos e analisar de que forma isso pode impactar na economia brasileira pode-se verificar algumas tendências. Apesar do número de trabalhadores estrangeiros ainda não ser muito representativo, quando comparado com as contratações totais da economia, no Brasil elas representaram 2,52% das contratações totais e em Sergipe esse número foi de 0,25% até o terceiro trimestre de 2011, já se constata uma tendência de mudança no fluxo migratório de trabalhadores em busca das melhores oportunidades.

As consequências para o Brasil seriam bastante positivas, desde que se tenham os cuidados necessários. Atualmente o Brasil está próximo de sofrer um “apagão” de profissionais especializados, só na área de tecnologia, informação e comunicação (TIC) há um déficit de 92 mil profissionais e segundo dados do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia o déficit de bacharéis em engenharia é de 20 mil por ano. A taxa de desemprego, segundo o IBGE, foi de 5,2% em novembro de 2011, de acordo com esse dado o Brasil estaria próximo do pleno emprego, ou seja, toda oferta de mão de obra estaria ocupada, salvo aquelas que estariam em mudança de emprego.

Quando a demanda por profissionais é superior à oferta, trabalhadores se encontram numa situação mais confortável de maneira que podem barganhar maiores benefícios junto aos empresários, entre eles maiores salários. Quando há aumento real na remuneração dos trabalhadores apresentam-se duas consequências. A primeira é o crescimento na demanda por produtos e serviços dado que há mais renda disponível para os trabalhadores e a segunda é que se elevam os custos de produção fazendo os empresários elevar os preços dos bens ofertados, concluindo em um aumento no nível de preços, aumentando a inflação!

O Brasil, ao longo de sua história, sofre de constantes pressões inflacionarias. Com a importação de trabalhadores especializados para o país, abrir-se-ia uma válvula de escape para a manutenção tanto do crescimento, evitando um “apagão” de oferta de mão de obra, quanto do nível de preços em um padrão controlado. Isso se explica por que o mercado de trabalho também esta sujeito à lei da oferta e procura, quanto maior a oferta de determinado produto ou serviço (no caso a força de trabalho) menor o preço pago por este. Aí ocorreria o primeiro grande benefício da importação de mão de obra, porque esse movimento serviria para equilibrar a oferta e demanda do mercado de trabalho, com isso adicionaria mais uma força no sentido de controlar a inflação.

Outros possíveis benefícios que ocorreriam seria a maior especialização no mercado de trabalho brasileiro e aumento da concorrência. Um aumento na oferta de mão de obra especializada aumentaria a busca por melhoria na qualidade da formação dos profissionais por parte dos brasileiros. É notório que as universidades européias e americanas gozam de melhores estruturas e conceitos perante a comunidade internacional, segundo o ranking produzido pelo Times Higher Education, do Reino Unido, entre todas as universidades brasileiras somente a USP apareceu na lista das 200 melhores do mundo, ainda sim em 178º.

O fato dos profissionais que chegam ao Brasil serem, em grande maioria, qualificados contribui para aumentar a competitividade das empresas brasileiras, porque o país também importa know how. A grande vantagem desse perfil de profissionais está na bagagem que eles trazem, pois há à incorporação de experiências, conhecimento de dificuldades e prática para resolver problemas. Há ainda um outro efeito derivado do acirramento competitivo entre os trabalhadores que seria a busca por inovação e desenvolvimento de novos produtos e habilidades no intuito de conquistar espaço e reconhecimento, mais um ponto positivo caso a tendência apontada se confirme.

Levando em consideração esses aspectos é natural pensar que o Brasil está atraindo mão de obra especializada sem qualificação, apesar de não constar nas estatísticas do Ministério do Trabalho, possivelmente essa população não dê entrada nos pedidos de autorização de trabalho, fato que aumenta a informalidade. Para que se aproveite ao máximo os benefícios dessa tendência seria necessária a adoção de políticas específicas para o nicho de interesse, como reduzir a burocracia para emissão de autorizações para trabalhadores com formação técnica e especializada, ao mesmo tempo dificultando a emissão aos candidatos sem qualificação.

Por todos esses aspectos, é-se levado a acreditar que o país está frente a uma grande oportunidade de se consolidar como um importante player da economia mundial, atraindo IED, profissionais e se modernizando. A tendência apontada pelos números no ministério do trabalho, somado a realização de grandes eventos nos próximos anos a exemplo do Encontro Mundial da Juventude da igreja católica, Copa do Mundo em 2014 e Olimpíadas em 2016 é a verdadeira oportunidade do Brasil para ganhar a mais importante das medalhas de ouro.