Mapeamento de Cobertura Vegetal e Utilização da Terra para o Estado de Sergipe: a importância da cartografia temática para o planejamento.

Edson Magalhães Bastos Júnior

Geógrafo, Especialista em Geotecnologias, Técnico em Reforma e Desenvolvimento Agrário (INCRA/SE). Atualmente coordena o Núcleo de Geografia e Cartografia do Observatório de Sergipe.

O IBGE lançou no último dia 16 o Mapa da Cobertura e Uso da Terra do Estado do Sergipe, na escala 1:300.000. A nota pode ser acessada através do portal do IBGE endereço e o mapa está disponível em PDF no link ftp://geoftp.ibge.gov.br/mapas/tematicos/tematico_estadual/SE_uso.pdf

O trabalho foi realizado pela Gerência de Recursos Naturais da Unidade Estadual do IBGE da Bahia com participação da Coordenação de Recursos Naturais e Estudos e Ambientais da Diretoria de Geociências do IBGE. Além disso, contou com a participação de instituições produtoras e mantenedoras de dados geoespaciais em Sergipe nas áreas de Agricultura e Pecuária, Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Infraestrutura, Planejamento e Gestão, Estrutura fundiária, dentre outras, nos governos estadual, federal e municipal.

Figura 1. Mapa de Cobertura Vegetal e Utilização da Terra de Sergipe (2007-2009) Escala 1:300.000. IBGE, 2011.
A Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplag) participou do trabalho através da cessão de dados do mapeamento topográfico terrestre do litoral Sergipano, realizado em 2003. Um conjunto de fotografias aéreas e ortofotocartas digitais, que apresenta com riqueza de detalhes nas escalas de 1:10.000 em áreas rurais e 1:2.000 nas sedes municipais, as principais características físicas e ambientais do território, o que serviu de insumo para a elaboração do mapa.

A metodologia adotada está prevista no Manual Técnico para Classificação de Cobertura Vegetal e Utilização da Terra (2ª edição) e integra o Sistema de Classificação Nacional, que apresenta critérios taxonômicos num sistema multinível definido a partir de um esquema teórico composto por três níveis de abstração da superfície terrestre (Figura 2).

Figura 2. Esquema teórico de construção de uma nomenclatura da cobertura terrestre. (IBGE, 2006).

Assim, a classificação geral para Sergipe foi estabelecida a partir das unidades abaixo:

Figura 3. Esquema final de classes de cobertura vegetal e utilização da terra para Sergipe, segundo metodologia do IBGE.
O Mapa foi produzido a partir de métodos e técnicas de geoprocessamento e sensoriamento remoto com análise de imagens de satélite e fotografias aéreas, além de dados cartográficos preexistentes e levantamento topográfico em campo como recursos de Sistemas Globais de Posicionamento por Satélite (GNSS).

O Mapa de Cobertura e Utilização constitui-se um referencial técnico para a elaboração de estudos e pesquisas que envolvam a análise da dinâmica territorial, da ocupação do espaço, estudos ambientais, zoneamentos agroecológicos, dentre outros. Como resposta final ou como ponto de partida de um trabalho investigativo, o mapa de uso da terra representa uma etapa metodológica importante na análise de ambiente.

Figura 4. Mapa de cobertura vegetal e uso da terra, produzido a partir da interpretação de imagens do satélite SPOT5. Atlas Digital de recursos Hídricos de Sergipe. SEMARH-SE/SRH, 2011.Escala de visualização: À esquerda- 1:300.000. À direita – 1:100.000.
Essas representações auxiliam a compreender melhor os conflitos de uso e apropriação dos recursos naturais, do crescimento urbano, das fronteiras agropecuárias, da estrutura fundiária, e por esta razão auxilia na compreensão de elementos-chave para a produção e organização do espaço geográfico.

A questão da escala: o que ver, quanto ver, como ver, por que ver.

A escala de referência adota pelo IBGE para esse mapeamento foi de 1:300.000. Isto significa que na folha do mapa, um quadrado formado por um centímetro de aresta (1 cm2) corresponde por exemplo a uma área real de 900 hectares aproximadamente. Supondo que, nessa escala geográfica, os 900 hectares estejam cobertos por áreas de pastagens e culturas permanentes, é possível que, aproximando a visão, ou seja, ampliando a escala, encontremos fragmentos de formações florestais, ou mesmo áreas degradas, ou ainda áreas antrópicas de uso não agrícola, dentre outros comportamentos.

Por esta razão o IBGE adverte, na nota geral do mapa, que “qualquer ampliação de escala torna o documento fora das normas cartográficas estabelecidas.” Isto significa que a leitura e a representação apresentada no mapa é válida até esta escala de referência.

Um fato aparentemente simples, porém muitas vezes ignorado quando se trabalha com integração de dados geoespaciais de várias escalas de referência e métodos de aquisição (geração) diferenciados.

Todo mapa, como qualquer representação gráfica ou semiótica da realidade, tem seu quantum de abstração e expressa nas visões construídas, em maior ou menor grau, os conceitos e fundamentos científicos das diversas áreas do conhecimento, como a Geografia, a Estatística, a Sociologia, a Geomorfologia, a Geologia, a Biologia, dentre outras.

Figura 5. Mapa de cobertura vegetal e uso da terra, produzido a partir da interpretação de imagens do satélite SPOT5. Atlas Digital de recursos Hídricos de Sergipe. SEMARH-SE/SRH, 2011.Escala de visualização: À esquerda- 1:300.000. À direita – 1:100.000.

No exemplo acima, a área em destaque apresenta um conjunto de serras residuais bastante conhecido no estado, do qual a Serra de Itabaiana constitui a principal unidade geomorfológica. As áreas em verde escuro são remanescentes florestais que apresenta formações fitogeográficas dos ecossistemas Mata Atlântica, mas também já apresenta zona de contato com a caatinga, com algumas formações típicas do cerrado brasileiro.

Esse detalhamento só aparece de acordo com a escala de análise, com o objetivo do trabalho e também com a disponibilidade de dados geoespaciais em grandes escalas.

Segundo o manual técnico de uso da terra do IBGE,

“A complexidade dos fenômenos abordados no mundo real vem exigindo e ampliando as possibilidades de reflexão sobre o termo, incorporando à acepção tradicional o sentido de representação de diferentes modos de percepção e concepção do real. Vista desta forma, a escala é uma prática de observação e elaboração das várias faces e dimensões do real, que só pode ser apreendido por representação e fragmentação.”

O processo de construção do mapa perpassa pelos referenciais de dados e informações de que se dispõe. Quanto mais elementos identificáveis no espaço, mais características apreendidas, maiores também são as chances de que a representação síntese de um fenômenos ou conjunto de fenômenos seja mais fidedigna ao seu comportamento no mundo real.

Desta forma, o mapa de cobertura vegetal e utilização da terra constitui um instrumento importante, mas é necessário aprofundar o conhecimento das características geográficas para compreender melhor a dinâmica do espaço e subsidiar o planejamento das políticas públicas de forma mais especializada do ponto de vista da escala de análise.

A importância dos dados geoespaciais cadastrais: detalhar para conhecer melhor.

O sucesso de qualquer sistema de informações perpassa sempre pelo equilíbrio entre quatro dimensões gerais: a disponibilidade de recursos humanos, o estabelecimento de métodos e procedimentos bem consolidados, a existência de uma infraestrutura de tecnologia de informação (máquinas, equipamentos, rede lógica, Internet) e a disponibilidade de dados (no nosso caso dados geoespaciais). Em que pese a importância dos métodos e procedimentos bem como da infraestrutura física, os maiores pesos dessa balança recaem sempre sobre os atores do processo e a necessidade de dados adequados aos objetivos do sistema (input).

No que se refere ao mapeamento temático com recursos de Sistemas de Informações Geográficas (SIG), a disponibilidade de dados cartográficos de alta precisão e acuracidade são fundamentais para análise das condições do terreno e quase sempre reduzem significativamente os trabalhos de campo, porque proporciona aos especialistas uma visão detalhada dos principais elementos estruturantes do território e permite um planejamento mais eficiente das atividades exploratórias.

Aí reside a importância do mapeamento em escalas cadastrais (acima de 1:25.000) além da disponibilidade de dados detalhados de altimetria que permitam a construção de modelos digitais de elevação (DEM) e modelos digitais do terreno (DTM) capazes de dirimir uma série de questões sobre o comportamento do relevo e sua relação com os graus e formas de ocupação e utilização da terra.

Sergipe, através da Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplag) está realizando mapeamento topográfico terrestre detalhado de todo território Sergipano. São cerca de 18.000 Km2 de áreas rurais mapeados na escala de 1:10.000 e quase 300 Km2 em áreas urbanizadas mapeados na escala 1:2.000, que complementam o mapeamento do litoral realizado no período de 2003 a 2004.

Um dos principais produtos do mapeamento são as ortofotocartas digitais coloridas, resultado do processamento e da interpretação de fotografias aéreas, a partir do qual foram extraídas as principais feições topográficas: infraestrutura viária (rodovias, ferrovias, estradas, caminhos, pontes, etc), rede hidrográfica (cursos d’água, lagoas, lagos, terrenos sujeitos a inundação, etc), edificações de interesse público (escolas, clínicas e hospitais, equipamentos de lazer, etc), informações sobre relevo (curvas de nível e pontos altimétricos cotados).

O mapeamento produziu fotografias aéreas de todas as sedes municipais além de algumas localidades com maior grau de infraestrutura urbana e concentração populacional em relação ao seu entorno.

Figura 6: Comparativo entre escalas de cartas topográficas. À esquerda e acima, trecho da Carta Topográfica da Sudene (Década de 70), com destaque para a sede municipal de Canindé do São Francisco, na escala de 1:100.000. À direita e acima, um detalhamento na mesma área, na escala 1:2.000, mapeada em 2009-2010. À esquerda e abaixo, trecho do modelo digital do terreno para a sede municipal de Simão Dias (SE). À direita e abaixo, ortofotocarta na escala 1:2.000 no município de Lagarto (SE).Fonte: IBGE, 1970. Seplag/SE, 2010.
O projeto encontra-se em andamento, entretanto já se dispõe de todas as sedes municipais mapeadas, e os dados produzidos chegam ao gestor público nas diversas esferas como um importante instrumental, de forma aberta, para aproximar cada vez mais o conhecimento científico da gestão pública.

Este artigo teve como base a publicação do Mapa de Cobertura e Utilização da Terra para Sergipe (IBGE), o Projeto Base Cartográfica de Sergipe (Seplag/SE) e faz parte das ações do Observatório de Sergipe, um ambiente técnico-científico sediado na Superintendência de Estudos e Pesquisas, vinculada à Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão, responsável por sistematizar dados e informações que servem de base para o conhecimento e compreensão da realidade de nosso estado.

Quer conhecer mais um pouco? Acesse www.observatorio.se.gov.br/geografia-e-cartografia-de-sergipe.html.

2 thoughts on “Mapeamento de Cobertura Vegetal e Utilização da Terra para o Estado de Sergipe: a importância da cartografia temática para o planejamento.

  1. Parabéns pelo artigo. Espero que os municípios sergipanos se apropriem o quanto antes desse importante instrumental para o desenvolvimento de uma gestão pública eficaz.

  2. Pingback: Observatório de Sergipe lança espaço virtual para divulgação de artigos - ACQUA

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